dos 3 aos 5: Orfeu Negro
Andávamos a namorar o livro desde que o vimos anunciado na página do autor. E agradecemos à Editora que gentilmente no-lo cedeu para leitura.
O tio Jeffers é constante cá em casa. Ainda hoje nos faz rir e sonhar, e não só o revisitamos constantemente, como foi/é/será presente de nascimento, aniversário e Natal para muitos meninos e meninas do nosso meio.
Este livro em particular é de uma ternura insuperável. Foi escrito pelo autor para o filho acabado de nascer, e traz consigo uma apresentação ao mundo que não seríamos capazes de traduzir com tanta beleza.
Temos a recordação de Miguel Sousa Tavares que partilhou que a mãe, a sublime Sophia de Mello Breyner Andresen, lhe disse ao nascer: “vê, Miguel, este é o mundo.” E rever o mundo pelos olhos de uma criança, vê-la descobrir todas as pequenas coisas que vamos aprendendo a esquecer é um presente para a vida. Uma espécie de segunda oportunidade.
Este livro é tudo isso e muito mais. Uma declaração enciclopédica de amor ao mundo.
Começa pela localização relativa do nosso planeta, na imensidão do espaço. Depois apresenta as texturas ricas e diferentes que caracterizam a biodiversidade. As diferentes espécies não são elencadas de forma exaustiva, mas dá para ter uma primeira ideia de tudo o que o mundo tem para oferecer. E depois de vermos o espaço, voltamos a encontrá-lo a partir da terra, onde visitamos as estrelas que tantas histórias nos inspiram. Pontinhos de luz e de vida, a milhares e milhares de quilómetros de distância.
De seguida, conhecemos o nosso pequeno universo: o nosso corpo, claro. E o corpo dos outros também. Que mais velho ou mais novo, mais claro ou mais escuro, é em essência isso: um corpo. Merecedor da mesma dignidade independentemente das diferenças. No mínimo, interessante precisamente por causa delas. Porque se, afinal, nas páginas seguintes temos diversidade nos animais e até pagamos bilhete para a conhecer nos jardins zoológicos, às tantas podemos pensar em aproveitar a do vizinho do lado e sem pagar nada, não?
E o Pequeno Leitor que figura como interlocutor do livro ainda não fala, mas já sabemos que as perguntas nadam na cabeça aos milhares e esperam apenas a primeira palavra para dar forma à sua própria descoberta.
Então, o livro fala-nos das rotinas. Do acordar e do dormir. Das tarefas e do lazer. Da descoberta de tudo o que já existe, mas que pode ser completamente diferente para quem acaba de nascer. E não é isso a vida? Redescoberta?
Por fim, chega o alfinete. Aquela estocada final que nos inspira uma lágrima.
Sê gentil.
O mundo tem que chegue para todos. E se te faltarmos, também tem muito para te dar e nunca estarás sozinho.
Fazemos parte de algo maior. E este testemunho de um pai, que por acaso também é escritor e ilustrador, é tudo o que gostaríamos de saber dizer (e vamos dizendo como podemos) aos nossos Pequenos Leitores.
Por isso, se a emoção for forte e não vos ocorrer, escondam-se atrás destas bonitas páginas, rasguem-nas e pendurem-nas se for preciso, ou andem com a mais especial de todas no bolso. Assim, quando admirarem o milagre da vossa própria criação, não vos faltarão palavras.
Enciclopédia de puro amor. Leiam esta pérola traduzida pelo Rui Lopes e já vencedora do Design Book Awards 2018. Prémio maior não haverá se o lerem.
Aqui.