
dos 6 aos 10, Kalandraka
Não é todos os dias que encontramos um livro tão comovente assim. Oferecido por amigos muito queridos e com uma dedicatória de abraçar contra o peito, é sobre avós – a capa não engana. Mas é, acima de tudo, sobre a forma como nos veem os olhos que nos amam.
Manuel está em casa com a sua Manuela, quando ouve anunciar uma festa na terra, nessa mesma noite. Mal pode esperar, quer ir dançar com o seu amor. E então diz, “Vamos dançar, Manuela.” Mas Manuela, velhinha e pouco confiante, quer pintar os olhos, pintar os lábios, arranjar o cabelo, mudar as saias. Porque tem pernas fracas e olhos tristes e pestanas curtas. O cabelo mal compete com uma nuvem branca num céu de verão. Mas Manuel insiste. Tudo o que a ela lhe parece velho e gasto, a ele inspira o amor de sempre. E quando finalmente Manuel arrasta Manuela para o baile, também ela o olha nos olhos e vê o que ele vê.
O Pequeno Leitor anda fascinado com a ideia do tempo, mais particularmente do seu fim. Ainda não experimentou, felizmente, a perda de ninguém próximo. Mas já o assusta a ideia de que os pais lhe possam faltar em algum momento da vida. E começa aos poucos a entender que os avós, por serem mais velhos, seguirão primeiro. Por isso, seguem-se as perguntas, os beijinhos, as juras de amor.
A morte não é fácil de explicar, mas cá em casa não disfarçamos muito. Brincamos um pouco, prometemos que viveremos até aos 200 anos (comendo muita gelatina de morango), mais coisa, menos coisa. Mas achamos que ainda está muito distante para ele a capacidade de perceber a ausência de alguém para sempre.
Contudo, pensamos que este livro mostra, mais do que pessoas velhinhas, duas pessoas que se amam, apesar dos defeitos que percebem em si mesmas. E que não o são, na verdade, porque são apenas marcas do tempo.
Para uma mãe que encontrou os dois primeiros cabelos brancos e não se imagina a pintar o cabelo quando a “nuvem branca num céu azul de verão” se lembrar de a visitar e ficar de vez, é um livro que cai muito bem. Às tantas até acredita que cada fio de cabelo branco é uma página do seu próprio livro – e essas temos que respeitar.
Na verdade, é simples ser feliz: amar todos os dias e fazer saber que amamos. E sair para dançar sempre que pudermos. É assim que a mãe do Pequeno Leitor quer que a recordem quando a gelatina de morango se acabar.
Um mimo para descobrir aqui.
Ou mesmo aqui, para um cheirinho 😉