dos 6 aos 10: a fábrica de chocolate do senhor coelho

320x

dos 6 aos 10, Minutos de Leitura

Quem quer saber de onde vêm os ovos da Páscoa? O Pequeno Leitor quis e escolheu ele mesmo este livro na livraria.

Embora a Páscoa já tenha passado, este livro chamou a atenção do Pequeno Leitor por causa dos cartazes contestatários (que conhece de “O dia em que os lápis desistiram” e da TV), dos sinais proibidos, e, claro, dos ovinhos de chocolate que ele se fartou de gabar nesta época.

Mas este livro continua pertinente do ponto de vista temático, porque não se limita ao universo da Páscoa, abrindo portas para uma série de outras interpretações – e daí também a nossa abertura nas idades para as quais o livro será mais indicado.

O Senhor Coelho (é-nos imediatamente exigido que o tratemos assim, porque não há cá confianças) é retratado como um patrão cruel, obcecado pela produtividade. Proprietário de uma fábrica bem oleada na preparação dos ovos de chocolate, exige cada vez mais das desgraçadas das galinhas poedeiras. Edgar, o responsável pelo controlo de qualidade (obviamente, um unicórnio com óculos), é o grande gestor, tentando agilizar o trabalho das galinhas e os maus humores e exigência do Senhor Coelho.

Logo nas primeiras páginas deparamo-nos com um mapa excecional da fábrica, onde o processo de produção fica bem evidente: prepara-se o chocolate, fazem-se barras, as galinhas comem-nas e depois chocam ovos de chocolate. Nada mais óbvio. Mas é claro que o chocolate em excesso sai caro para as trabalhadoras, que sofrem já de alguma indigestão e começam a acumular umas banhinhas jeitosas debaixo das penas.

Mas, por muito que o ritmo de trabalho nos pareça bem, o Senhor Coelho é ambicioso. Quer mais e mais. E um dia, não só proíbe as férias, como exige que trabalhem noite e dia, para fazerem mais e mais ovos de chocolate. Rapidamente, a exigência torna-se um problema: as galinhas que sofriam já de alguma indigestão, ficam pior; uma das galinhas (Marta) cai na tina de chocolate quente e andamos à procura dela o livro todo; algumas conseguem acompanhar o ritmo mas as embaladeiras não, por isso, quando o ovo cai, parte-se porque ainda não houve tempo de arrumar os que foram chocados antes…

É então que as galinhas se juntam e declaram greve. Saem da fábrica e reclamam, com cartazes nas mãos, contra as várias injustiças do Senhor Coelho. Mas, ele, bem orgulhoso, decide que não precisa delas para nada e resolve juntar-se a Edgar, o unicórnio leal, e assumir a produção sozinho. Tudo muito certo nos primeiros 15 minutos, porque Edgar depressa se cansa de ter o trabalho todo e de receber ordens enquanto o seu patrão só berra e berra e berra. O Senhor Coelho fica completamente sozinho mas nem assim desiste.

“Quando queres um trabalho bem feito, fá-lo sozinho.” Seria esta a máxima do livro, se a coisa não corresse tão mal. Porque, efetivamente, estão as galinhas despedidas a chegar a casa, quando ouvem ao fundo a fábrica cuspir chocolate descontroladamente. A produção aumentou, mas as máquinas não aguentaram a pressão, e, sem técnicos para a resolver, os estragos são consideráveis. As galinhas celebram, mas Edgar, o companheiro leal, acha que apesar de tudo o Senhor Coelho precisava daquele acidente para reconhecer que precisa de ajuda. Então, todas as galinhas se unem, desta vez para salvarem a fábrica.

A fábrica é finalmente resgatada e, como num sonho, o Senhor Coelho pede desculpa e pede ajuda, dando-se início a um novo paradigma na produção. Saltamos então para as páginas finais, onde as galinhas poedeiras começam a contribuir com várias ideias para expandir as ambições da fábrica, como as bengalas doces, os coelhos de chocolate e os ovos Kinder (uma das galinhas interroga-se sobre como será possível chocar um brinquedo, uma questão que fica em aberto…). Marta, a galinha que se afogou na tina de chocolate é resgatada. A galinha sem nome que só queria férias, menos preocupada em ser produtiva, consegue-as.

Ora, este é um livro que apresenta várias camadas textuais. Há um fio narrativo visível, que avança tranquilamente pelo livro, mas temos também os vários cartazes, a sinalética da fábrica, as conversas das funcionárias. É complexo e por isso mesmo divertido de ler. Mas é também um livro que é Páscoa e 25 de abril num só. Fala-nos da importância da cooperação, do trabalho de equipa. Nas suas várias camadas, pode naturalmente ser lido aos mais pequenos pela graça e o absurdo de vermos galinhas a comerem chocolate e a porem ovos da mesma substância; mas também pode ser debatido com os mais velhinhos, abordando-se o porquê de por vezes os pais chegarem mais cansados a casa, a importância de nos sentirmos valorizados no que fazemos (independentemente da idade e do contexto), a complexidade das grandes organizações, o direito à greve e o seu impacto, e o dever de lutarmos pelo que queremos e nos fazermos respeitar.

Sem dúvida, um livro para a família, pensado para as crianças mas que apelará a várias idades e realidades, e, ainda que o final seja muito feliz para o mundo real, poderá ser o pontapé de saída para uma conversa bem interessante.

Disponível aqui.

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